terça-feira, 10 de novembro de 2009

Curtas


Clarissa, Noiva. 24. A antecipação precedeu os sorrisos. Acenos e risinhos nervosos contraíram involuntariamente suas bochechas rosadas. Amigas e comadres; viúvas e tias; todas aquelas vagabundas reunidas, repetindo: “querida, hoje será o dia mais feliz de sua vida”. Assim desfilava de branco a mais linda porta-bandeiras de uma causa perdida. Com olhos que brilhavam molhados e se seguravam para não borrar o contorno do lápis negro. Com lábios que tremiam e mostravam a fragilidade da nicotina em seus dentes. Com tudo aquilo que dá direito ao leitor em suspeitar que a narrativa está omitindo algo. Algo que faça de hoje, talvez, o dia mais infeliz da vida de Clarissa.

Casablanca, Fotógrafo. 37. Acordou e foi para o banho. De gilete na mão, aparou os pelos pubianos, deixando os testículos lisos e brilhantes. Secou a pele irritada, acendeu as tochas e acertou o foco. Puxou o cabo de sincronia e fez fotos de seu sexo perfeitamente depilado para uma proposta artisticamente estúpida e sem sentido. Logo depois, arrastou para o chão a poeira nas arestas de sua mesa, e posicionou um leque de cartas que recebeu pelo correio. Abriu todas, menos uma. Continuou os rituais matinais e dispôs os braços no exercício diário em retirar o excessivo e desnecessário de sua vida. Arregaçou as mangas da camisa, e parou ao primeiro sinal de suor. Transpirava, não pelo esforço físico, mas pela tentação em abrir o convite de casamento de Clarissa. Amante. Ex-namorado. Corno passivo. Quem sabe? Talvez os três. O que nos importa é que sofre. Guarda para si algo que mantém como cravo para se manter acordado. Fica o homem e o silêncio, cúmplices deu seu próprio sofrimento. O resto é a gordura narrativa entediante que não vale a pena ser descrita.

Eloá, Dama de Honra, 24. Bem-humorada, se expressa sempre pelas cores de suas unhas. Das francesinhas às florais, dependendo do dia. Abriu exceção para a cor proibida, o preto, no casamento de sua melhor amiga. Alisou os cabelos encaracolados, e sorriu ao longo da tarde, transformando falsidade em alegria. Mas quem a Eloá bem conhecia, via a amargura expressa nas suas cutículas feridas. Desarmou o noivo com um olhar e incentivou a amiga a dar um passo errado na vida. Mal comida e intrometida, abençoa o matrimônio que condena. O tempo, com seus segredos, talvez traga a tona a paixão que nutre pelo noivo. Ou a faça esperar muito tempo para que se apaixone por outro. No final, têm grandes chances de terminar gorda, velha e sozinha. O narrador se abnega a ter pena de sua fraqueza. Talvez comova o leitor, e faça com que derrame uma lágrima. Artífice barato para a vaidade do escritor que sente orgulho em entristecer o outro.

Augusto, Convidado. 29. Observa o circo pegar fogo da última fila. Se julga maior que todos esses animais que o cercam. Enaltece-se, engrandecendo-se em sua própria soberba egocêntrica. Como o diabo, mantém-se quieto, segurando as chaves para todos os segredos contra o peito. Pois Augusto sabe capitalizar sob o sofrimento. Sofrimento esse que é apenas seu, mas que pretende tornar alheio. Ressentido, terá ainda o seu momento. Aguarda sabiamente para dar o bote nos amigos. E quando perguntarem porque vendeu a felicidade deles por tão pouco, revelará tudo que lhe fizeram ao longo dos anos. É louco, mas carismático. Personagem que todos amam odiar, pela sua sutil esperteza. Se for escrito por um realista, se dará bem no final. O que importa é que com elegância sua maldade sempre triunfa.

Paulo, Engenheiro. 42. Observa pela janela preparativos de um casamento na igreja em frente a sua casa. Sente um peso nas pálpebras inchadas e caídas, lembrando do dia em que subiu ao altar com Marina. O peito se enche, mas a pele esfria. Seu filho pequeno grita. Choro e desespero. Pela centésima vez pensa o que seria dele se matasse toda a sua família. O café-da-manhã e o silêncio. Torradas nadando no leite ensangüentado, deixando um gosto gorduroso em seus lábios. O pulso contrai com a idéia, e ele respira. Um trago de oxigênio. Tempo suficiente para salvar algumas vidas. Amanhã, talvez, ele se torne capa de manchete pela brutalidade do seu crime, e não pelo esforço que teve até hoje em agüentar aquele inferno de vida. Um crítico dirá que a personagem foi vítima do mundo moderno. Na literatura é mais fácil ser absolvido das chacinas do que no tribunal da vida.

Lucas, Cartunista. 22. Caminha sem rumo pela praça. Cansado, não percebe o casamento acontecendo do outro lado. Pensa no amor, na morte e na metafísica. Se distância do drama e da realidade, agora que conquistou o amor de Larissa. Justo ele, que sempre foi uma fatalista. Que fumava quase dois maços e bebia de Quarta a Sábado. Que não acreditava nem em Deus e no Diabo. Que pensava que já sabia viver sozinho. Seu peito explode em alegria. Mais 10 passos e provavelmente será atropelado pelo ônibus que está virando a esquina. Dona Zuleika, que lhe aluga um quarto ao lado, pode ser testemunha da tragédia. Caso não escape, sua morte será considerada um presságio por aqueles presentes no casamento de Clarissa. Sacrificado, como um porco, pelo bem maior da narrativa. Seu amor não vale nada no final do dia.

Márcio, Escritor. 29. Não se importa com os rumos dessa sua narrativa. Muito menos se Clarissa será feliz. Se Casablanca sofre com a sua partida. Se Eloá trepou com o noivo e inveja a amiga. Se Augusto terá vingança naquilo que clama ser justiça. Se Paulo vai virar caso social ao matar a família. Se Dona Zuleika terá de lavar o sangue apaixonado do falecido Lucas da guia. Se todas essas vidas terminarão em tragédia por conta daquele dia. No final das contas, tornou-se amoral a sua própria estória. Tudo lhe parece pequeno, incluindo ele mesmo. Não grita. Não chora. Não vinga. Não planeja. Apenas sufoca o que sente em um bando de pessoas fictícias. Acha que por brincar de artista, entende Deus. Que caso Ele exista, escreve torto pelas regras da estética, e não por uma ética divina. E ainda mais, sabe que tudo isso de merda alguma importa em sua vida. Enquanto ele tiver pés, terá de caminhar, e isso lhe parece mais absurdo que qualquer ficção ou fantasia escrita. E por mais que tente, nunca está contente com a solidão que sente. Morreria se soubesse o quão é incompetente em expressar a sua dor.

Daniell. 23. Se dá por satisfeito e acende um cigarro. Enquanto se faz de personagem em seu próprio texto, tenta definir qual é a melhor maneira de encerrar a narrativa e deixar de dramatizar a si mesmo. Cansado, finalmente decide por um final em aberto. Sabe que só assim, para si, pode acreditar em um final feliz.

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Sim, finalmente, o esperado retorno. Andei um pouco ocupado e com alguma falta de inspiração, e por isso prometo tentar esse mês voltar a freqüência antiga de textos. Desculpas dadas, vou comentar rapidamente a nova narrativa. A idéia foi fragmentar friamente um drama, dando foco nos principais envolvidos e em algumas personagens que aparentemente não teriam relação ao evento principal. A idéia é de interconectividade, onde todos estão relacionados direta/indiretamente, incluindo a relação de um escritor fictício com esses personagens, e eu com todo esse conjunto. Poderia ser muito bem uma história, e não uma estória, sobre pessoas reais, sejam elas os personagens, o próprio escritor fictício e em última estância, metaforicamente, sobre mim. Algo pra testar os limites de até onde coisas jogadas no texto são partes intrínsecas minhas ou informações coletadas durante a vida, ou criações alegóricas sem cunho realista. Quis deixar um tom de frieza ao máximo, um distanciamento emocional para mostrar o quão comum é a tragédia no dia-a-dia das pessoas. Para se ter essa noção basta imaginar os bilhões de pequenos dramas que acontecem todos os dias com as pessoas. As centenas de milhares de problemáticas que sucedem só por se estar vivo e respirando. Por isso não pude deixar de me incluir, não por vaidade, mas no exercício de trazer mais realismo ao texto em si.

Prometo mais um para essa semana. Aguardem. Beijos crianças, e boa noite.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Queda

- "Porque a morte aparantemente é a verdade do amor. Assim como o amor é a verdade da morte"
- Bataille, "A Literatura do Mal"


O que você costumava mesmo dizer naqueles idos de 2000? Nos relatos das suas histórias malditas? Que entre um sorriso e outro, você as escondia de mim, e que não passavam de pequenos contos escritos nos papéis do cartão de débito, como fábulas descartáveis que serviam de epístolas para uma suicida? Que organizavam assim as suas fantasias de menina, e faziam com que você se sentisse morta no final do dia?

De fato, o tempo fez do seu temperamento peças de atos e gêneros tão diferentes. Movimentos dramáticos entre cenas, que criaram o exato espaço para que você desse um passo no sonho e pulasse janela afora. E nessa sua queda, o gosto do suor frio nos meus lábios, enquanto os agudos dos seus gritos galgavam em decibéis os meus tímpanos atentos. Era assim que toda noite você caía, apenas para se encontrar em lençóis molhados, e se afogar no pranto daquele pesadelo inventado.

Desse seu horror psicanalítico, de sua paralisia quimérica, eu tirava proveito do choque na minha fome em tomar você em meus braços. Na tensão dos seus tendões, que não percebiam que deixaram de estar mortos, eu pudia sentir sempre que arrancava com os dentes a libido necessária para celebrar o seu sexo. Engalfinhado entre as suas pernas, minha boca alimentava os hematomas que cresciam como flores em sua pele. Sim, você sabia que as escoriações e os machucados eram por um bom motivo, e que esses constituíam a terapia dos rasgos e das ranhuras, e os milhares de choques naturais da qual a carne é herdeira. Essa consumação, tão devotadamente querida, e que aos poucos fazia você voltar a vida com o rubor do sangue de seu rosto, serpenteava até o meio de suas pernas e, de súbito, tirava você do horror de seu sono.

É assim que aos poucos, eu trazia seu corpo até a linha pontilhada, aonde os relâmpagos gemiam na intensidade do seu retorno libidinoso. Todas as conclaves daquele contrato, assinadas em termos transitórios em uma carteira de trabalho, carimbando o fato de que seu estado era apenas um compromisso temporário. E antes que você jogasse a sua ternura pela janela novamente, eu a resgatava no silêncio austero de minha própria violência. A arrancava com os meus dentes careados, puxando-a do meio dos seus cabelos atrelados aos meus dedos.

Noites e noites assim, consecutivas, com a sua morte dando carona para o meu amor. Até aquele dia, em que despertei no vácuo da sua ausência. Naquele espaço seco e árido dos lençóis, sem saber se você realmente tinha pulado. Olhei para os lados, negando aos meus olhos a geometria perfeita da janela que estava aberta ao nosso lado. Chamei três vezes por você, e três vezes me foi negado o som de sua voz. Sim, três vezes que meu coração contou até o infinito no intervalo curto do seu nome. E quando me cansei de desdobrar as paredes lisas do apartamento, resolvi encarar o óbvio. Olhando para o abismo que separava a brisa da terra, olhei o chão da calçada ensangüentado, e logo pensei “por acaso hoje eu cheguei atrasado? Estendi a mão para outra mulher em algum sonho distante, empurrando o queixo de minha querida contra o asfalto?”.

Mas a pergunta permaneceu nas entrelinhas de um falso obituário, pois o seu corpo nunca foi encontrado. Os odores de seu cabelo fugiram do travesseiro, e os seus vestido apodreceram. Nem vestígio daquele doce mistério que se escondia em seu sexo, permaneceu. E nos minutos que se seguiram, vaguei pela terra a procura de algo que restasse para provar a mim mesmo que você tinha estado ao meu lado.

Por isso querida, depois de muito tempo, chego a conclusão que o ocorrido possa ter sido o contrário. Que talvez o buraco tenha vindo até você, e dele você nunca mais tenha retornado para estar ao meu lado. Quem sabe – e sei que você não gostaria que eu pensasse assim -, mas ás vezes imagino, que quem tenha caído no meio da noite, sem saber, tenha sido eu. Tropeçado, sonâmbulo, pela janela, em um mundo que você não está lá para me fazer um homem desperto. E se isso for verdade, eu me indago, quem poderia me devolver a vigília agora que cheguei ao fundo do buraco? Em qual corda o fantoche pode se agarrar sem ser constantemente derrubado? Não há respostas nessa meia-vida que levamos, que a cada queda nos transforma em um outro elemento, sempre mais fraco, nos deixando com apenas a metade do tempo que usou para nos enfraquecer, para repetir o feito mais uma vez.

No final, quando as minhas forças tenham finalmente me abandonado, e minha última meia-vida acabado, sei que olharei deitado na cama, para o lado, e verei a nós dois estirados, com as pernas quebradas e os pulmões perfurados, sangrando sem conseguir pedir socorro pelo ressentimento criado. Na atração de nossa traição mútua teremos ambos caídos, sem nunca mais podermos nos reencontrar no abraço perdido que nos impedia de desaparecer. Mortos e desamparados, fazendo desse amar, ensaio para a bela mentira da queda, que nos convence que não irá nos derrubar pela próxima vez.


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Misturando a idéia de Desgaste, com Sexo, Hamlet, Cortázar, Bataille e Física. Na realidade, o mórbido tema que permeia tanto esse texto surgiu em algumas reflexões sobre Ophelia, que morre afogada na peça de Shakespeare, e que traz a tona o diálogo dos coveiros, discutindo se o caso da personagem se enquadrava em suicídio. Interessado, fiz o básico de sempre: misturei temas até que o tom correto do texto ganhasse forma. Algo que ficasse no campo do sonho, do metafísico e simbólico, mas ao mesmo tempo que representasse essas questõezinhas sobre a carência humana. O movimento entre impulso e rejeição, criando toda uma ilusão. O que remete de novo a peça do bom e velho poeta inglês, que faz bem melhor do que eu, em discutir amor, morte e vingança, em sua peça de 4 horas.

E falando em Hamlet, vou propor um esquema sério: quem descobrir uma citação roubada da peça nesse texto, e souber apontar em que ato e cena está, prometo enviar uma cópia da peça para a pessoa. É isso. Boa Quarta-Feira para vocês...


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Nas Tardes de Domingo

As cascas brancas e partidas entre os dedos, livres de seu conteúdo no paradigma de mais um café-da-manhã. O calor da fritura na frigideira lisa, e as meias 5/8 bregas e beges aquecendo suas pernas lisas em uma manhã fria. Os livros e a solidão de um mundo inteiro para encher o seu pequeno apartamento. No bolso, para dar sorte, uma caixa de fósforos, e dentro dela, um anel de prata com os dizeres em latim: “Para Bellum”. Em cima da mesa, folhas amareladas de Mallarmé se debatendo furiosamente em direção a uma morte prematura, e que apenas descansam quando ela resolve fechar as janelas. Quietas, permanecem as palavras sublinhadas com uma caneta preta esferográfica, por uma pessoa anônima e claramente transtornada: “Je ne viens pas ce soir vaincre ton corps, ô bête / En qui vont les péchés d'un peuple”.

Na pequena bolsa de cor creme, o compacto resumo de um universo feminino. Maquiagem, papéis vazios de bala e seus absorventes surrados, escondidos. O sutil contraste no toque de uma mão gelada contra o pescoço enquanto a outra segura a caneca quente de café preto. Ao seu lado, a gata siamesa desarrumando o jogo da Rainha desarmada que quer devorar o Rei adversário. Os pequenos contrastes da vida de Bianca, marcados e assinados nos detalhes de mais uma manhã chuvosa de domingo.

Sem me dar conta, fantasio seu olhar se rendendo em direção a janela. Os ovos já fritos e quentes no prato, esfriando na porcelana branca, enquanto o fantasma do homem que ela expulsou de sua cama perambula pelas memórias após o calor da noite de sábado. Toda imensidão que a reconforta na sensação em estar sozinha finalmente. O silêncio na canção da chuva contra o vidro das janelas. O silêncio, Bianca. E mais nada.

O súbito assalto da vaga lembrança do sexo que ainda faz as suas costas brancas arrepiarem, tapando os buracos da estrada de seu coração pelo tempo que dure aquele feriado. Sem os acidentes de corpos desgovernados e capotados, resultando nos velhos traumas de um amor fraturado. Apenas a sensação térmica que equilibra, e o movimento entre os extremos que a afaga com o pensamento de que apenas basta esperar. Sim, esperar, Bianca. Por algo melhor, eu insisto.

A tarde passando por ela, e ela esquecendo que logo, a qualquer momento, a noite há de se aproximar. As cascas brancas e partidas na pia. Os ovos fritos e frios no prato, abandonados pela metade. As meias 5/8 rasgadas e os livros com suas frases, em mudo mistério, todas grifadas e não lidas. E seus olhos verdes contemplando a satisfação no vazio que reina em sua tarde nublada. O vazio, Bianca, esse que tão poucas vezes é bom e faz sentido. Que preenche e persiste, e faz com que tudo perca o sentido. Tão vazio, que traz esperança em seu silêncio tardio. E ao mesmo tempo tão calmo, Bianca, mas tão calmo, que faz você chorar, como uma tonta alegre que finalmente se dá conta do que na vida é necessário para viver.

E eu insisto nela. Em Bianca, eu quero dizer. Me pergunto se vive no número 23. Ou, quem sabe, é a mulher de salto-alto que escuto caminhando de madrugada no apartamento logo acima do meu. Evoco toda uma memória que não existe, nessa possibilidade absurda que ela esteja atrás de alguma porta desse prédio, escondida em uma das vitrines refletidas no edifício espelhado que se ergue em frente a minha janela. Ou quem sabe mais além, em outra cidade, sem faltar em caráter ou detalhe que eu aqui retratei.

Hoje, foi ela que inventei. Amanhã, talvez, fantasie com outra que não tive ainda a chance de conhecer. Outra que também me faça companhia na próxima tarde solitária de domingo, contemplando comigo a água que escorre silenciosa pelo vidro. E apesar de perceber que há uma estranha luz que se firma entre as nuvens dessa chuva fina, fazendo dessa minha tarde tão triste, sei que hoje é um dia lindo. E sabem porque? Porque hoje foi o primeiro dia que imaginei em conhecer alguém como ela. Como Bianca. Pois acredito que ela realmente exista e respira, mesmo que escondida dentro de um desses corações vazios que ainda estou para cruzar em alguma esquina de minha vida.
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E o trabalho de escritor fumante não é fácil quando acabam os fósforos e os isqueiros. Só sobra o fogão na puta-que-o-pariu para acender o cigarro. Mas apesar dos desafios homéricos, mais um texto completo. Para quem está curioso, o poema de Mallarmé citado aqui, é o famoso "Angústia", que tem uma ótima tradução do Humberto de Campos (trecho aqui citado traduzido por ele: "Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela /Que encerras os pecados de um povo"). E a frase em latim é do provérbio "Si vis pacem, para bellum" ("Se você quer paz, prepare-se para a guerra").

Saindo um pouco da linha fantástica dos últimos textos e voltando para algo mais realista sobre os afetos das pessoas, essa é a estória de um cara que fantasia com uma mulher que pode muito bem ser real, e estar em qualquer parte do mundo. O mundo das milhares de possibilidades, do improvável ao cruzar a esquina de casa. E tão real, que talvez alguma garota nesse mundo tenha tido um domingo exatamente igual ao que eu descrevi. É o inesperado, a esperança em saber que as coisas são tão absurdas, que essa mulher que ele imagina, pode até mesmo ser a sua vizinha. Isso não é pensamento positivo e imbecil, apenas a conclusão da multiplicidade de possibilidades, positivas e negativas, que podem simplesmente se revelar a qualquer momento. Basta imaginar para que a possibilidade do objeto proposto tenha alguma chance de existir, independente do quanto absurdo a coisa seja... Esse é o verdadeiro poder do tonto que escreve: criar caminho para acreditar naquelas coisas que as pessoas acham ser tão improváveis que nunca vão acontecer. Exagerado? Só pensar em Julio Verne escrevendo sobre ir para Lua com algo semelhante a um foguete, muito antes de se imaginar que isso poderia ser possível.

Pensamento positivo é coisa de auto-ajuda, e isso daqui é realismo em um grau de 'possibilidade'. Probabilisticamente comprovado, eu garanto. Afinal, mesmo que as chances sejam de 1%, ainda é uma chance, não? O importante é saber que pode acontecer, só isso... E já está de bom tamanho.


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Síndrome da Sincronicidade Permanente

Começa com o cheiro de couro em seu pescoço. O suor em algum ponto distante, longe do presente, mas sem estar perdido em um futuro ausente. Tudo amarrado naquele resquício olfativo que traz a memória de volta, e faz o nosso herói relembrar qual face se esconde atrás do seu último disfarce. Ele, que foi a solidão no fio da navalha, e que agora enfrentava os seus punhos despedaçados na madeira do seu estrado embolorado, resolveu contar a sua história em detalhes vagos e inventados.

Sentou em um café decadente, encarando o cinzeiro de metal ainda quente, e riscou alguns esboços. Tentando cunhar a metáfora exata sem deixar nada de fora, retratou-se como o perfeito terrorista dos corações carentes. Mas não. Se recusou veemente em concordar com aquele esterótipo manjado de conquistador barato. Jamais ficaria contente, pois sabia que havia muitos espaços entre o intervalo das palavras que poderiam ter sido ditas. Por isso sugeriu à si mesmo que, para recapitular, deveria tentar o suicídio. Esperava ver o clichê da vida passando diante de seus olhos, desmistificando a mentira que ele mesmo construíra em seu ego inflamado, e assim finalmente relembrar o seu nome verdadeiro.

Foi em frente, de alma limpa e barba feita. Macho para caralho e persistente. Com o seu cinto surrado em volta do pescoço branco e azulado, deixou que o peso da barriga o jogasse até ao chão. E nos 30 primeiros segundos da falta de oxigenação, reviveu o pesar do homem sem sorte que ele deveria ter se esquecido.

Sua vida poderia ter tido os traços de um romance, mas infelizmente tomara o caminho de uma bula de Fluoxetina amassada em algum canto de uma lavanderia chinesa e suja. Eram 6 da manhã, e ainda estava se convencendo da existência de efeitos colaterais na masturbação matutina, quando olhou para o lado. A ereção não era fruto da empolgação, mas da ninfeta que dormia ao seu lado, quieta e tranqüila. Não se lembrava da garota ou como tinha chego até lá, mas quando resolveu espiar para ver se realmente era bonita, empalideceu de terror. Deixou a camisa serpentear no peito e empurrou o carro ribanceira abaixo, dando partida no final da rua para que não a despertasse. De tanto medo, demorou uma semana para marcar um médico, pois estava convencido, desde o momento que botou os olhos naquela menina, que havia contraído o vírus.

O prognóstico foi lamentador. O doutor explicou que ele teria que viver com aquilo para sempre. Que a natureza metafísica daquela DMT não havia sido solucionada nem pelo mais douto dos filósofos. E de fato, que ele estava fodido, e seu conselho era que tentasse conviver com a Síndrome da Sincronicidade Permanente (SSP) e levasse a vida normalmente.

Mas como ele poderia? No mesmo dia a primeira coincidência o alcançou. Fez piada de um garoto retardado e ficou três dias sem conjugar um verbo no tempo adequado. Na semana seguinte mandou um motorista no semáforo tomar no cu, e logo depois foi brutalmente estuprado por um travesti revoltado que o confundiu com um cliente que não o havia pago. Cada pequeno pecado sempre elevado a terceira casa do caralho. E após perder todas as esperanças, leu um artigo, discutindo um tratamento experimental. Radical, no mínimo. Tudo consistia em um duro treinamento em enganar a si mesmo, seguido de uma auto-mutilação permanente e a habilidade de mudar o seu rosto como bem entendesse. E após 2 anos convivendo com a doença, recolheu uma faca de cozinha e fatiou a sua face em pequenas tiras. Assim deu início a sua tentativa de cura. Enfaixou o rosto com esparadrapos, guardou consigo um kit de maquiagens e acendeu um cigarro. Com uma dúzia de passaportes falsos dentro de sua maleta, deixou sua vida antiga de lado.

Em sua primeira amnésia auto-induzida, encarnou Juan Pablo Peruíbe, o famoso traficante colombiano. Ganhou muito dinheiro repassando drogas para políticos, e com isso conquistou o amor da filha do presidente, Florentina, e uma casa de presente de núpcias em uma floresta particular e paradisíaca. Mas 1 ano depois a doença se manifestou e seu lar foi bombardeada em um exercício do exército da Colômbia na floresta em que vivia. Com a mulher morta e o dinheiro na casa, queimado, utilizou-se da técnica de auto-hipnose que havia aprendido e mudou mais uma vez de identidade.

Agora no México, tinha se tornado o Padre Anselmo Guitirrez, e cuidava dos pobres e carentes. Aos poucos as jovens moças que o chamavam de milagreiro, começaram a agradecer os seus feitos com mais do que uns poucos beijos. O tempo passou, e o jovem padre tinha ganho fama de ter traçado até a mulher do prefeito. Não tardou para que os homens se reunissem e quisessem crucificá-lo como exemplo. Fugiu assim que uma de suas amantes o notificou da canonização apressada que os cidadãos planejavam contra ele.

Rendeu-se então a uma vida pacata na Argentina, como o padeiro Diego Isiedro. Casou-se e teve 3 filhas. Vivia tranqüilo com sua esposa, Sandra, e a Síndrome não se manifestava a quase 7 anos. Foi então que, por conta um relapso moral, o seu pau começou a andar com as pernas da vizinha. Suas filhas pequenas, revoltadas com a depressão de sua mãe traída, o acusaram de pedofilia, o que levou seu rosto a ser impresso como “Monstro” nas principais manchetes de Buenos Aires.

Havia tentando de tudo e não agüentava mais aquilo. Voltou para o Brasil, perseguido e fodido. Mesmo tendo sido trabalhador, santo e bandido, a Síndrome da Sincronicidade Permanente não deixava causa injusta desfeita. A vingança era implacável e sorrateira. O tratamento havia sido um fracasso, e não havia dúvida que ele havia tentado. Assim sendo, o nosso herói tinha tomado a decisão de escrever uma biografia, um legado para todos aqueles que sofressem da mesma doença pudessem evitar os caminhos que ele havia tomado. Mas havia um problema, depois de tantas identidades, não reconhecia o rosto que via no espelho, e muito menos lembrava do nome com que havia sido batizado. Por isso o apelo ao suicídio, na esperança de relembrar no clichê do flashback a sua história.

Encontraram o seu corpo dentro do banheiro do café, pendurado em cima da privada com os olhos revirados e todo cagado. O investigador do caso não teve dúvida da causa natural de sua morte, conseqüência da SSP diagnosticada pelo legista do IML. Era mais um pobre bastardo, sem rosto e sem nome. Um daqueles que passou a vida tomando a felicidade alheia, e que no final levou aquilo que merecia. Ao menos era assim que o investigador Amoreira pensava, enquanto apagava o cigarro, vendo a vida passar do lado de fora de sua viatura. Não imaginava que dali 3 meses seria diagnosticado com o mesmo problema em um exame rotineiro da polícia. Como todos, iria descobrir que os corações que feria eram a causa de sua Doença Metafísica Transmissível (DMT), praga que crescia e se espalhava mais a cada dia. No final, para curá-la só bastava que o nosso herói, e o investigador Amoreira, deixassem de amar um pouco apenas a si próprios. De pararem de fazer da carência alheia, cama para se deitarem e depois fugirem às pressas, alimentando assim o sofrimento na solidão de seus corpos ausentes. Não tinham de ser samaritanos, apenas não tão putos e sacanas. Mas infelizmente, essa cura, de tão simples e absurda que parecia, nunca foi proposta ou descoberta por intelectual ou cientista algum, e assim a SSP, e outras DMT's, se espalharam rapidamente pelo mundo. A OMS relatou o número alarmante de 90% da população mundial infectada em seu último boletim. No final, não havia amor suficiente para ser vendido como gaze no mercado, e o povo ficou sem solução para limpar o pus das feridas dos seus corações machucados.

E assim, mais uma vez, a tristeza vinda do ego do homem reinou, fazendo de seus sentimentos o lobo que os devorou...
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ATUALIZANDO: IP banido da Wiki por 3 dias pra criar ou editar coisas. Beleza, têm o mesmo artigo da SSP aqui na desciclopédia, vamos ver se esse dura dessa vez: http://desciclo.pedia.ws/wiki/Síndrome_da_Sincronicidade_Permanente

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Querendo se informar mais sobre a Síndrome da Sincronicidade Permanente? Dêem uma conferida na Wikipédia, antes que meu pequeno vandalismo seja notado: http://pt.wikipedia.org/wiki/Síndrome_da_Sincronicidade. Antes que alguém pense alguma coisa idiota, não, isso não é uma metáfora para uma doença venérea minha. I'm fine and healthy, thank you ;) . Sendo assim, foi só uma idéia de uma estória curta que eu tive. Algo mais absurdo e fantástico, e diferente do usual. Pra relembrar que nada nessa vida é de graça - tudo que se faz, se paga. Egoísmo tem um bom preço no mercado, e só aguenta passar por isso quem está acostumado a viver sozinho. O que me faz lembrar esse belo poema do Brecht, falando do peso em se bancar a própria 'maldade':

A Máscara Da Maldade

Em minha parede está pendurada um entalhe japonês,
A máscara de um demônio maldoso, decorada com um verniz dourado.
Com simpatia eu o observo
As veias afundadas em sua testa, indicando
O esforço que existe em se ser mau.

É isso.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A Balada de Alonso Antunes

Começou pela fome. O desejo da mordida profunda em sua carne, seguido de tudo aquilo que fazia o seu sangue ferver. Depois, podridão e morte na mentira que se tornou verdade pelo simples poder da sua palavra. Assim deu início a última aventura de Alonso Antunes, que fez de sua vontade uma corcunda, e dela usou como molde para criar o seu derradeiro monstro libidinoso.

Ceticista, celebridade, cientista do oculto, luciferiano, fumante e artista. Algumas vezes eleito pela Times como o novo Messias, Alonso conhecia a arte do suicídio social e da reencarnação nominal, podendo trocar de rosto e trejeitos em um simples movimento. Era soberano das mentiras, o léxico de tudo que fosse sinônimo de imperfeito, capaz de fazer cada verbete soar como certo através do simples exercício de sua vontade teimosa. O Buda retórico dos nossos tempos.

Mas dobrar a realidade daquele jeito tinha um preço. Vendia no mercado os melhores pedaços de sua consciência por alguma amnésia momentânea que o permitia ser o pistoleiro mais corajoso do puteiro. Só dava valor a algo naquela vida, sua Paloma, Palomita, a filha imaginária que nunca teria. Criou-a um dia, enquanto meditava sobre um futuro paralelo, em que se casava e vivia a vida de um homem de família. Alonso tinha esse passatempo de se dar o luxo em não viver o presente, conversando com os fantasmas de uma existência impossível, inversamente proporcional aquilo que merecia. Era a sua mágica preferida, a de ter várias vidas e curar algumas feridas em alguns minutos no calor da brisa.

Certo dia, a filha que não existia, Palomita, perguntou para Alonso:
- Quando o senhor vai morrer? - nosso herói que viveu apenas pelos seus pecados, colocou a mão no coldre e deu uma baforada em seu cachimbo. Tinha 54 anos, mesmo que não passasse dos 24, e se sentia mais velho que as arestas gastas da areia que raspava em seu calcanhar machucado. Tirando o tambor do revólver em silêncio, mostrou a sexta câmara para Paloma, a única que não estava vazia. Apontando para a mesma, disse:

- Você vê essa bala minha pequena? É a palavra certeira que vai me derrubar. Um dia irei puxar o gatilho contra o coração e tombar. E nesse dia, vou deixar a minha fama para trás. Alonso Antunes será apenas uma lenda na boca dos homens e nas pernas da mulheres.

- Mas papá, e se eu abrir o seu peito com uma navalha? Retirar do meio das suas costelas quebradas a palavra machucada? Trocar tudo por um beijo, que faça o seu coração voltar a bater, como a bobina de um toca disco quebrado, que pula a música, mas que deixa o suspiro do cantor aliviado? - Alonso se calou. Era a hora de sua última aventura, e por isso se limitou a beijar a testa de Paloma. Ela amava o seu pai, mas não entendia o embalo do delírio em que ela existia. Ele que era o falso profeto, que matou tudo que amou, queria viver uma última melodia, e deixar o cantor gitano chorando pela sua triste vida.

Cuspiu nas mãos e limpou o chapéu. Tirou a areia das botas gastas e negras. Se vestiu como o padre em seu próprio enterro. Era um monstro. Um monstro. E por isso iria devorar as bocas que cruzassem o seu caminho. Beber dali, onde as línguas travam guerra, entre os beijos e sussurros de uma última noite. Viu naquele alvorecer uma despedida, e fotografou tudo o que podia para não se esquecer daquele dia. Duelou contra a sombra na parede, e dormiu nos pés daquela garota como um cachorro até o amanhecer. Sua juventude lendária tinha dado lugar ao cansaço. Entre as suas vitórias, apenas entreviu que aquele jogo caminhava para a sua aniquilação. Escolheu então que fosse com as suas próprias mãos. Estava farto dos corações alheios e das conquistas retrógradas, que se alimentavam do esquecimento assim que ele saia por aquela porta. De fato, cansado de pagar por algo que nunca receberia de volta.

Agarrou-se a esse acordo, e em três dias bebeu como o diabo, descobrindo o que era o desprezo no silêncio dos seus atos. E depois de acariciar tantos cabelos, inventou a morte, que por acidente, veio visitar a um amigo antes que ele. Ela usou o companheiro como exemplo, para que se lembrasse que ainda vivo, poderia fazer diferente. Que talvez, apenas talvez, se esclarecesse as coisas, Alonso poderia redimir tudo que havia feito. Mas no fundo sabia que nada havia mudado, e levando o revólver no peito, deu um último beijo no seu reflexo cansado. E antes de fechar os olhos, lembrou-se das palavras do escritor colombiano, maldizendo a si mesmo: “El corazón tiene más cuartos que un hotel de putas”.

E foi assim que morreu o grande Alonso Antunes, o Barão dos bares, o caçador de amores, que deixou de legado apenas alguns arrependimentos baratos. Dizem que o pouco que restou dele continua a caminhar em algum canto, em luto por todo esse confronto. Que limpou a sujeira do casaco, e olhou para trás o estrago de seu coração, brindando pela vida daquele personagem. E depois de enterrá-lo na soleira da porteira, cansou-se de seus troféus, de seus ardis mágicos. Por isso limpou a gaveta e guardou o revólver enferrujado entre as cartas de Tarot que prediziam esse dia a tanto tempo. Pendurou o chapéu, como lembrança do quão fartos todos estavam de seus jogos, de seu ego mentiroso, e depois, visitou o amigo morto, deixando um maço em seu epitáfio mal escrito, em sinal de perdão pela ficção que o havia matado. Mas sem os espaços para as palavras caminharem no seu passo, pensou se deveria ter dito algo. Se no final, sempre agimos errado. Ou que os corações são crianças que se esbarram a noite, e se sufocam sem dizer uma palavra. Mas o túmulo permaneceu em silêncio, velando a resposta para aqueles mistérios que permaneceram sem solução. Ficaram as dúvidas. Ficaram os dois...

... e a avalanche de incertezas que se seguiu e os arrastou.

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À aquele morreu e que se foi em silêncio. À aqueles que vivem e permanecem também em silêncio. A tudo que definha e morre sem saber porquê. Aos enganos e a incompreensão, seja dos mortos ou dos vivos. Aos arrependimentos e todos os seus mistérios. E Ponto.

Deixo esse post com mais um texto de autoria própria:

É assim que no silêncio da morte,
O corpo velado se vai,
De sorriso vestido e copo na mão.

Seu cigarro se apaga,
E o amigo chora sua ida,
com a fumaça no peito mastigando o pulmão.

Chega a quarta-feira, e a rotina caminha,
Criatura maldita,
Que faz de minhas rugas, ranzinzas.

Chega, quarta-feira. Chega. Chega dessa vida.
Besta faminta,
Que cala a todos que respiram.

Chega, quarta-feira. Chega de ferir esse coração.
Filha da ira,
Rainha da eterna presunção.

Chega de me lembrar do escritor,
Que dizia que em vida,
a melhor maneira de se morrer
é com a lembrança de um grande amor.


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Morte de Paula

Paula colocou a mão sob o ombro de Ignácio. Enquanto ele se debruçava para pedir uma cerveja no balcão, ela passou o indicador com carinho sob as suas costas machucadas.

- Essa luz faz bem para o seu rosto – disse sem sequer olhar para ele. Apenas desenhou a silhueta de como imaginava o perfil que se formava entre a fumaça de seu cigarro. Era o seu homem, e naquele exato momento, tudo o que sempre precisara sem saber.

Ele, sentindo a mão de Paula repousando em seu ombro, entrelaçou seus dedos nos dos dela, em seu tipico silêncio austero e raivoso. Ignácio a amava como um touro. Ofegante, só perdia o controle quando a noite fazia do copo um amigo. Tinha dificuldades em dividir o seu mundo, e por isso tentava dizer tudo a ela através dos seus gestos. Falava com a mão. Miró, Matisse ou Man Ray, ele conseguia expressá-los apenas esfregando a pontinha de seus dedos contra o pescoço de Paula.

Eram tão diferentes. Ele, argentino, odiava o tango e a poesia do seu país. Ela, brasileira e escritora, nunca dizia não para uma dança e chorava ao ler qualquer belo verso. Paula achava da vida um sonho, já Ignácio acreditava que tudo não passava de um absurdo. Eram tão opostos que quando se conheceram em 1949, não houve paixão. Apenas medo e tensão. Primeiro quando ela começou a tirar polaroids de Ignácio caminhando pela rua e depois por parte dele, defendendo a honra de Paula quando um homem fez um comentário obsceno sobre a sua saia. Mas não obstante, ficaram amigos e tinham vários gostos em comum. E com o tempo o touro se amansou e aprendeu a amar aquela menina daquele jeito bobo e palhaço, que quem o conhecia dizia que nunca vira tantos sorrisos de quina em seu rosto. E se tivesse de explicar porque andava rindo pelas ruas, diria apenas:

- É porque descobri, para minha alegria, que não estava mais dormindo ao acordar do lado dela.

Gabriel, o enfermeiro, ouviu essa história da boca de Paula uma semana antes dela falecer. Passara o resto da semana pensando o que era amar. Se aquela mulher velha e acabada, de olhar triste e cansado repetia aquela história, como se fosse a única coisa boa a se recordar, onde a vida o colocava? E por isso, pouco a pouco, lembrou-se dos últimos 3 meses de pratos quebrados e lençóis sujos pela cafeína e os cigarros. Dos arranhões nas costas e os amassos atrás da porta do seu quarto. Lembrou-se até se esquecer do porque caminhava naquela exata direção, sem notar o chuvisco ou ambulância parada com o empresário taquicárdico. Tropeçou em Deus e no Diabo, caindo em uma questão retórica que o fazia pensar o que havia feito de errado. E repetiu para si mesmo baixinho, como resposta:

- Não era pra ter sido...

A partir desse dia só se vestiu de preto. Uma outra família que o contratou para olhar um velho senhor, o mandou embora, depois de tanto reclamarem que o idoso delirava, achando que Gabriel era a própria morte. Pouco a pouco, descobriu assim o segredo da invisibilidade – se enfiava no meio das multidões, sem ser notado, e desaparecia como um vulto negro entre aquelas centenas de rostos. Ele sabia muito bem quem procurava. Brincava de jogo-da-velha com o acaso, se escondendo entre as vigas e as colunas da cidade na esperança que ela aparecesse mais uma vez. E quando não fazia isso, esquecia como era viver no presente. Voltava para aquela cabeça pesada em seu peito, e as noites passadas em claro. Descobriu também que queria ser à prova de balas, e que falar demais ou se calar davam na mesma. Ouviu falar que ficar quieto e observar traz conhecimento. Sabedoria talvez. Mas e o amor? Não bastava andar ou ficar parado, pois o mesmo fugia em passos largos, não deixando rastros para onde tinha ido viver. Talvez ali no vizinho, ou na padaria ao lado. Ou, quem sabe, ido com aquela moça de saia vermelha, ou com o traficante que trabalhava na boca do bairro. Parecia mais que o amor fingia se esconder nas luzes da pista, nos narizes dos cocainômanos ou nas relações espontâneas e vazias. Se maquiava, feito Pierrot o palhaço, deixando o palco sem que o público visse o seu espetáculo.

Mas a memória dela continuava a atormentá-lo. Rápido, imprevisto e sem contrato. Entre risos, e encontros não estipulados, aquele jogo o fazia sentir seguro que ela seria sua. Mas então, veio o dia que ela não quis mais vê-lo. Talvez apenas como amigos, mas não mais entocados feito gatos que se encolhem um no outro procurando da chuva fugir. Sem mais beijos, massagens ou abraços. Fez-se o ponto, e saiu o pobre Gabriel desse conflito derrotado.

E no final do dia, enquanto examinava o ponto de fuga do horizonte desaparecendo do alto do seu apartamento, renunciou a tudo por um imensidão opaca, como uma orquestra que cessa de tocar e deixa aquela última nota ecoando nos ouvidos. E nesse momento, abismado com o tamanho do vazio em seu peito, repetia:

- Não era pra ter sido... Não assim...

Pobre Gabriel. A única coisa que esse moço queria, como Paula e Ignácio, era ser feliz. Ao menos com ela, quem sabe, poderia ter sido assim...

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1. Para lembrar se eu ainda sei escrever em terceira pessoa.
2. Para provar que eu ainda sei respeitar o formato de uma crônica.
3. Porque vidas aleatórias realmente influênciam a nossa.
4. E pra finalizar, porque nessa vida, se alguém conhecer uma Paula e um Ignácio de verdade, me avisem, porque só acredito vendo.

É isso, mais uma estória de corações partidos pra vocês crianças... Aproveitem o final-de-semana.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Noir

- Quais são as suas exigências? - ela pergunta.

- Exigências? Quais exigências? Afinal, sou eu que estou de refém aqui, não é? – ironizo com um sorriso de sarcasmo. Mas não tarda para que eu emudeça. Assim, de pronto, mareado com o calor e cansado, sem qualquer explicação plausível. Imagino agora que tudo o que devo fazer é esperar o fim do recolho antes do ricochete de sua resposta. Aproveito esses segundos e peço para o meu garçom imaginário uma garrafa de água com gás e um analgésico, daqueles pequenos e coloridos, que me fazem esquecer se realmente estou aqui com ela, nesse pequeno espaço infeliz.

- Você que está se fazendo de refém para roubar algo, eu sei. Se ofereceu, quieto, para que eu pudesse levar você ao meu lado e assim ficar mais próximo para que pudesse também levar algo de mim.

- Bah... O quê eu poderia querer que você tem para me oferecer? - nada de engolir seco agora homem, você está na bravata, por isso arrume o colarinho imaginário e dê uma pigarreada, rápido. Ajeite o cabelo, faça um gesto emprestado, mas sem devolvê-lo. E não esqueça da regra de ouro: não entregue os trejeitos na moeda da arrogância, ou ela irá perceber o blefe manjado. Roubar um Rembrandt seria mais fácil, de fato. Mas essa garota é esperta, então, o que eu posso fazer?

- Quem disse que eu estou te oferecendo alguma coisa, menino? - certamente não está. Nenhum centímetro desse cabelo que se afoga sem gemer em meus lábios, me pertence. Muito menos o silêncio presente em suas costas banhadas nesse perfume tenso e amargo, tão marcante e prepotente em sua fragrância como se o cheiro realmente fosse parte dela. Não compreende que todos esses movimentos são de domínio público. Por isso que o que me interessa é o relatório não divulgado, as curvas gastas nas pequenas vírgulas que escondem quem ela possivelmente me mostrou ser sem estar ali, presente apenas para o pequeno público que a viu. Até mesmo o beijo teve de ser roubado. Não, na realidade minto, foi acumulado e retirado como o bilhete premiado da loto. A noite é minha, e por isso estou aqui, ao seu lado.

- E quem garante que eu já não tomei algo emprestado de você? - isso garoto, se faça de esperto. Retórica de malandro, improvisando o passo no jogo cruzado das palavras. Conquistando com a sua dança a menina do baile.

- Emprestado... Hum... Então quer dizer que você vai devolver? - ela sorri. Brevemente. Mas sorri. Eu sei, mesmo não olhando para o seu rosto. Sinto os músculos de suas costas se dobrando, em resposta ao meu comentário, com ares de cócegas e escárnio.

- Um beijo, um abraço, pode ser... O resto, não sei. Talvez eu até ofereça, mas sei que quem não vai devolver é você.

- Medo típico de ladrão, que é de ser roubado enquanto sai de casa para furtar o vizinho... tsc... seu cagão... - mas eu já tinha sido roubado. Roubado pelo meu desprezo amargo que crescia no rosto, feito a barba do diabo. Não haveria o que ela pudesse dizer que sanasse o abismo que se criou no momento que desci da varanda até o se quarto. A ausência abriu o espaço que engolira cada palavra do nosso diálogo, trazendo a tona a nossa falta de talento em lidar com aquilo. E o preço do que me foi tirado não poderia ser colocado sem afundar ambos naquela cama pequena em que estávamos deitados.

Tento não pensar mais nisso e estender o braço para alcançar a água ao lado em uma última tentativa de fôlego, mas o derrubo antes mesmo dos meus dedos o alcançar. O estalo do vidro quebrado leva junto com a gravidade o momento abaixo. Está selado o fim desse confronto. As paredes caíram, e não houve trompetas para derrubá-las. Só foi preciso do silêncio naquele meio segundo, em que a respiração segura a fumaça antes da explosão. De longe alguém escuta o som do alarme de um carro e o grito de algum pobre bêbado angustiado. Algo se quebra, sem nunca mais ser o mesmo. Algo se quebra, eu digo, e não volta a funcionar. E se volta, é apenas uma lembrança fetichista de como antes tudo se fingia de mais fácil para a rotina agradar.

Demoro um pouco para recolher os cacos e passar um pano ao nosso lado. Agora ela dorme, e eu resolvo dar meus passos envergonhados pelos tacos soltos de seu quarto. Saio com o sapato na mão e o casaco no braço, furtivo, sabendo que ela não vai acordar. A rua me espera, assim como o primeiro sinal da manhã, aquele amarelo acizentado e oco que começa a se coroar nos meus passos derrotados.

Assim que o trânsito traz a tona os primeiros ruídos da alma, cedo a minha vontade de fumar. Paro ao lado de um homem e o comprimento com um aceno, baforando o meu primeiro trago. Ele corresponde sem sorrir. Nessa manhã em que caminham os solitários, arrastando seus corpos das camas para o trabalho, sei que o homem ao meu lado não é feliz. Ao pensar nisso dou um riso leve e de olhos fechados. Sei que no fundo, ele também pensa o mesmo de mim...

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Mais uma madrugada... Estava sentado no sofá após caçar pornografia artística nessa cidade para a exposição da balada de quinta, quando me veio uma boa parte do diálogo na cabeça. Resolvi terminar agora. Infelizmente, sempre me toma mais tempo do que eu gostaria. O texto trata sobre o subjetivismo das ações e reações por conta de eventos aleatórios e pequenos que se tornam catalisadores de algo preso no silêncio dos diálogos (copo se quebrando no caso). A vida é cheia de detalhes que achamos que são os causadores da nossa infelicidade... Sutis, mas eles só servem para deixar o óbvio claro.

Deus e o diabo estão nos detalhes, é o que eu penso. Se prender a eles torna a vida mais difícil, mas ao menos mais clara. E as vezes mais nostálgica também. Quem se esquece do sorriso, da manha, do calor da noite ou da chuva de manhã? Amar o pouco que se pode amar está nos detalhes meninos, nos pequenos e malditos detalhes que se prendem na cabeça e formam um slide de powerpoint da sua vida. Se segurem neles nesses dias de chuva crianças, e lembrem da mãe ausente ou do irmão distante... O que importa é saber que algum dia você achou que já foi feliz, não?